O pensamento e a vida
A única liberdade que a vida me concedeu foi – a liberdade de pensar. Enquanto não me podem devassar as entranhas da alma, nem acessar o site da minha mente, meu pensamento flui inviolável. Tenho a liberdade de pensar, com a qual percorro essa trilha que me conduz da obscenidade ao sonho, das idéias baldias às más intenções, das suaves e amargas lembranças ao meu projeto rumo ao infinito. Tenho a liberdade de pensar com todas as minhas contradições, incoerências, desatinos, erros e desvarios. Livre dos juízos alheios, posso ser um pecador impune e o casto que despreza a virtude, posso ser o louco incensurável, o despudorado imune ao escândalo, o ambicioso à margem das disputas, o pródigo despercebido, o piedoso de uma compaixão veraz, o egoísta e o solidário na plenitude destes incontroversos e íntimos sentimentos, posso ser o mesquinho que se reprova, o canalha que se envergonha, o íntegro que se exalta, o homem bom, que, sem espanto, assim se reconhece.Tenho a liberdade de pensar sobre os que me olham e não me enxergam, e julgar os juizes que me absolvem e me condenam sem terem lido uma pagina inteira dos autos da minha vida. O pensamento da-me a certeza de que existo, revela minha limitação humana, define minha pequenina dimensão diante do tempo e do espaço, alimenta minhas dívidas e busca, quase sempre, em vão, as saídas desse beco em que elas se amontoam. O pensar sempre me foi convidativo.Ao ingressar na PUC-SP, me foi conduzida em largos passos a obrigação de pensar. Sendo uma Faculdade de Comunicação Social e Filosofia, tive então a obrigação de pensar. A faculdade despertou-me uma certa magia, despertou em mim a real luz da caverna de Platão. Fui obrigado a pensar no meu momento, no meu presente, no meu futuro e na minha vida. Desde aqueles inesquecíveis momentos de pensar, passei a existir, e nunca mais parei. Passei a existir somente pensando e não existindo somente em pensamento, mas conduzindo meu pensamento ao meu existir.Certo momento refletido em pensamentos no meio ao uma mesa de bar, regados a muito chopp, barulho e vários petiscos. Observei das pessoas e dos seus discursos pessoais o significado que elas davam para suas vidas, para muitos era ter para ser, para outros era ser para ter, outros eram ter para ser e existir, e para poucos era evoluir. Naquele presente momento fui tele-transportado para as tenebrosas aulas de filosofia da PUC quando, certa vez, discutindo filosoficamente com a renomada mestra, apresentei minha tese sobre evolução espiritual, onde a meu ver, evoluir não é ter e sim saber, saber o que quer, calcular sonhos, contornar delírios e pregar paixões. E me refiz em cálculos, no meio da resenha, apresentando a lógica de meu pensamento, de que, para mim, a evolução do homem não é somente a evolução de conquistas materiais, mas também, a evolução de conquistas espirituais. Somando com as aulas de lógica em filosofia, minha resenha se segue no pensar de que a evolução espiritual é também a evolução da “alma”. Evoluir a alma é criar pontes para a evolução do conhecimento, da palavra, da sabedoria, e do pensamento. O pensamento é a vida, e a vida é o evoluir, e o evoluir é o progresso que faz da vida ser uma única tangente rumo ao infinito. Evoluir espiritualmente é evoluir de dentro pra fora, é organizar-se mentalmente, é fazer dos olhos e do corpo o espelho da alma. A partir dessa resenha passei a gostar de pensar, passei a dominar meus anseios e a medir meus sonhos. Meu pensamento é a minha convicção de que, a cada átimo eu convivo com a minha própria vida e que todos os momentos reais da minha existência, que parecem ser pesadelos ou sonhos bons, não são apenas o instante de uma ilusão mental da qual eu desperto. Minha existência passou a ser concreta, saudosas aulas de filosofia, da qual o pensamento, hoje, me traduz um ser, e não um refém de mim mesmo.
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