Planos para conquistar o espaço

Nunca fiz planos para conquistar o espaço sideral. Era algo muito ambicioso para quem nem sequer imagina possuir, um dia, um pedaço de chão aqui na terra, com escritura e papel passado em cartório.Ao longo da vida, tentei me colocar, sempre, no meu devido lugar, em obediência ao exemplo milenar de meus antepassados, quando cada macaco procurava ficar no seu galho.Tratei a lua, o sol e as estrelas, como amigas cintilantes, sendo elas um exemplo do curso infinitesimal de minha existência, somente como mágicos desenhos do firmamento, onde imaginei esconder-se todos os mistérios absolutos, os segredos insondáveis, verdades inatingíveis, seres e coisas imateriais, e onde se perderam os olhares humanos, a alma dos poetas e os devaneios dos amantes.Mesmo quando o mitológico Armstrong pôs os pés na alvura de uma lua desolada, não o invejei, nem quis imitar o seu gesto. Ao contrário, desencantei-me diante de um verdadeiro estupro sideral, e antevi que alguns homens ditos normais poderiam, enfim e tragicamente, materializar suas loucas idéias.Mas o sonho humano, por ir além das fronteiras do impossível, encorajou o homem a ultrapassar os limites traçados da realidade. Fez do homem um ser pensador, enfim, hoje, vive traços de constantes devaneios e sonhos, circunstâncias reais e ilusórias, amores verdadeiros e virtuais, tudo na mais profunda órbita terráquea da loucura.No entanto, o dilema é a contradição entre a loucura e o sonho. Intimamente não os distingo com nitidez, como não enxergo exatamente a linha de separação que se risca entre a normalidade e a loucura.Não somente a poesia os distingue, mas, hoje não enxergo o devaneio do delírio e a racionalização da alma em separações um tanto quanto simplórias. Tudo parece girar na mais perfeita órbita, na mais perfeita sintonia, o devaneio e a realidade parecem estar conectados, assim, como o astronauta e o satélite. Existências um tanto quanto ilusórias e reais.Muitos consagram as estrelas, mas poucos as tocam, muitos acham que possuem estrelas, mas, poucos vivem o silêncio do viver nas galáxias, onde habitar espaços estrelares torna-se normal. Muitos acham que merecem estrelas, mas, desconhece seus sentidos.Com a evolução do pensamento o espaço sideral passou a ser o quintal de casa, o humano já foi a Marte, a Saturno, ao quinto dos infernos, e mais longe haverá de ir. Não serei testemunha da guerra nas estrelas nem do fim do mundo que, a bem da verdade e de algum modo, em certos aspectos, já se consumou.Muitos espíritos parecem vagar pelos satélites terrestres como almas penadas, a vagar pela eternidade. No mundo onde todos parecem estar em órbita estrelar salvam-se os raros ciganos que mesmo em um caminhar sem destino, ainda, possuem seus dois pés no chão.


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