Senhora das estações

As cidades, como as pessoas, têm alma. Não uma alma invisível, como sempre me ensinaram, a esconder-se nos corpos efêmeros até libertar-se para a eternidade. Mas uma alma viva de espasmos absolutos, uma alma suada, com pele, tato e cheiro. Todos os dias a alma de São Paulo me toca no invisível, me toca em momentos místicos, me surpreende em cada estação do metrô e, ali, nos subterrâneos da cidade, passa a mostrar-se nitidamente um cenário vivo de corpos, vagões, pedras, escadarias, aromas e sons da alma. Costumo vagar pelos corredores do metrô. Observo, ali, a alma da metrópole, em sua inconstância, percebo rastros deixados nos pisos de cada estação, as marcas do tempo, da hora, dos segundos que movimentam a alma de cada um que passa ali. Sinto a alma inconformada do tempo, submissa nos subterrâneos de cada estação. Percebo todos os indivíduos que vão e vêm, encontram-se e despedem-se nas estações e vagões rumo aos seus destinos desencontrados. Jovens correm ágeis para o futuro, amantes que se doam na breve espera dos trens, mulheres cansadas do árduo cotidiano, migrantes de todos os lugares do Brasil, homens circunspectos, multidões sem cara, e um rosto, nítido na multidão…De repente, eis que me surge uma velha senhora esperando o trem para o deslocar do tempo.Eu até então compenetrado pela leitura de Saramago, sou tocado por uma leve frase de uma senhorinha humilde e carismática dizendo que eu parecia com um dos muitos netinhos que ela tinha em sua veia familiar. Surpreso, encontrei em suas palavras gestos de afetividade e calor humano, muito além daquele Saramago que carregava com tanto orgulho sob meus braços. Vi e senti, de perto, a alma de um coração vivido, um coração que interrompeu uma leitura Nobel para fazer uma simples e constante lembrança familiar. O trem chegou subitamente, chegou em silêncio, nada estava em maiores proporções além daqueles olhos cheios de encanto. Embarquei. Estranhamente a velhinha permaneceu na estação, sorrindo e transmitindo em seus olhos a cumplicidade de um amor realizado, de um tempo concluído, de uma vida consagrada. De pé, na plataforma, aquela senhora tocava os lábios com as mãos, e acenava com beijos à distância que nos separávamos, eu, ela e o trem. Vi que não era apenas a alma da cidade, aquela velha mulher, era a uma linda criatura humana, de alma visível e nítida em seu gesto de amor, derradeira imagem refletida em nossos olhos úmidos. Sempre que aquela estação reaparece em meus olhos durante o caminhar da vida, nunca mais haverei de vê-la.Mas ela permaneceu, para sempre em mim, habitando o meu coração, com meu afeto, minha emoção e minha saudade.


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