Sedutora Vitrine

Quando Jean Baudrillard*, na década de 1970, sustentou a idéia de que não consumíamos objetos por eles mesmos, mas que consumíamos marcas, apontou para o que hoje assistimos na construção do marketing de moda: a construção de uma identidade contemporânea colocada em todas as dimensões da existência. As vitrines se tornam uma leitura do urbano, uma viagem aos estilos de cada cidade, a cristalização de um tempo fugaz.

Contribuindo com a esteticidade do espaço urbano que circunscreve as cidades, as vitrines têm um valor social a ser considerado para o próprio entendimento da sociedade. Nelas, encontram-se textos que dialogam com uma personagem, o consumidor. A vitrine incentiva à sensibilidade, proporcionando o seu receptor o prazer, estimulando-o a comprar e fazendo-o refletir sobre valores que lhe são apresentados pelos modos e estilos de vida agregados a marca e ao produto. 

Sabendo que as vitrines qualificam o lugar em que se encontram. As vitrines de ruas, por exemplo, ajudam a construir tanto a imagem da loja como a do próprio espaço urbano que as circunscreve. As vitrines são umas formas de manifestar o imaginário social, representando, dessa maneira, um modo possível de apreender as relações sociais de uma época, da perspectiva de um contexto histórico. 

Metamorfoseando-se em espaços bastante diversificados, do mágico ao lúdico, do sensual ao estético, etc., as vitrines criam narrativas até mesmo inesperadas, e constituem espaços para descobertas informativas, culturais e estéticas, e são justamente nesse ponto que são estabelecidos mercadologicamente diálogos entre produto e publico. 

Nosso primeiro contato com uma cidade é por meio de sua arquitetura, seus anúncios de rua e suas vitrines: as luzes da cidade somam-se a iluminação das suas vitrines, espelho de seu viver, reflexos de sua vida, expressão de sua sociedade e de seu tempo. Seja uma marca ou um produto, tudo engloba o estilo de vida de cada cidade, de cada bairro, e registra suas particularidades. 

Hoje a vitrine não é mais apenas mise-en-scène, mas é também um mise-en-spectacle. A vitrine pode ser relativamente simples e econômica em relação a outras mídias, mas devido a sua posição quase intima entre o ver e o ter, entre o contato visual e a materialização da ação da compra, isto é, entre o sabor do olhar e o poder tocar, quase que imediato, faz acontecer uma relação humana muito próxima e é isso que o homem social procura, precisa e quer. 

* Jean Baudrillard, A sociedade do consumo. 


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